Dresden

Em um post no blógue de livros da New Yorker, a jornalista Marina Keegan contou sua experiência ao assistir a um show de Sufjan Stevens.  O cantor realizava o último show da turnê de “The Age of Adz”, o cansativo disco que ele lançou em 2010. Em meio a animais infláveis, dançarinos fluorescentes e músicas de quinze minutos sobre o fim do mundo, Marina lembrou-se de Kurt Vonnegut e seu livro, “Matadouro 5″.

No livro, o personagem Billy Pilgrim é abduzido pelos tralfamadorianos, uma espécie para a qual ninguém morre: as pessoas morrem apenas aparentemente,  afinal todos continuamos a existir nas memórias e recordações daqueles que ainda estão “vivos”. A vida não corre em ordem cronológica em Trafalmador, já que seus habitantes conseguem ir e voltar no tempo. As obras de ficção do planeta seguem a mesma falta de sentido. A passagem citada no post da New Yorker explica:

There isn’t any particular relationship between the messages, except that the author has chosen them carefully, so that, when seen all at once, they produce an image of life that is beautiful and surprising and deep. There is no beginning, no middle, no end, no suspense, no moral, no causes, no effects. What we love in our books are the depths of many marvelous moments seen all at one time.

(Esqueçam esse post e corram atrás do livro, que é sensacional. Engraçado e profundo ao mesmo tempo, é a melhor sátira sobre a guerra – e sobre o homem, portanto – do século XX).

A jornalista traça, então, um paralelo entre os livros tralfamadorianos e o disco mais recente de Sufjan Stevens: estranhos, sem narrativa ou sentido lógico, mas que produzem um efeito de encantamento e beleza bem mais eficazes do que a maioria de seus pares.

***

Nos últimos dias só consigo ouvir um disco: “Go Tell Fire in the Mountain” , do quarteto inglês WU LYF (sigla para o ridículo nome “World Unite – Lucifer Youth Foundation”).  Talvez precisasse de dez parágrafos para descrever a música deles. Mas prefiro chamar de “exorcismo transcendental”, como se o Spiritualized tocasse post-rock, com um baterista do Mali e um vocalista viciado em oxi, crack e cocaína, simultaneamente.  As letras são cantadas (berradas, melhor dizendo) em um inglês absolutamente incompreensível, apesar dos quatro integrantes terem saído de Manchester. Tudo joga contra eles.  Mas o disco é excelente. E, mais importante, a música deles é revigorante, inspiradora. Faz bem ouvir WU LYF.

Em entrevista publicada ontem no Pitchfork, o vocalista Ellery Roberts diz que “ninguém nos entende, mas qualquer um pode se conectar com a gente”. Isso ;e aquilo que faria o WU LYF um grande exemplo de banda tralfamadoriana: é tudo muito estranho, mas faz mais sentido do que a grande maioria das bandas por aí. Afinal, é música feita com a alma, com o coração. Nada calculado, tudo é risco.

Ellery termina a entrevista dizendo que prefere ser odiado do que receber a aprovação inócua das pessoas, que normalmente acaba em esquecimento depois de algumas horas, normalmente dirigida a tudo aquilo que inofensivo. A música do WU LYF pode ser qualquer coisa, menos inofensiva.

E isso faz com que ela ressoe por muito tempo. “Go Tell Fire in the Mountain” não tem muito sentido, mas é bonito, assustador, profundo. Como a vida. Acho que os tralfamadorianos já sabiam disso antes da gente.

2 respostas para Dresden

  1. se apagar o blog também você apanha

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