Y colorin colorado, este cuento se ha acabado.
Ocupado
Esta é “Poison”, um dos primeiros registros de Rocket Juice And The Moon, a (trilhonésima terceira) nova banda de Damon Albarn. “Poison will only break your heart” canta Albarn, compositor da melhor canção de amor do terceiro milênio, “Out of Time”, da sua outra (ex?) banda , o Blur.
Tudo embalado por Tony Allen, que toca bateria como se estivesse tomando café e lendo jornal, e Flea. Bom perceber que o baixista está começando a ter vida própria: Flea também toca no Atoms for Peace, de Thom Yorke, bem longe dos cada vez mais irrelevantes Red Hot Chili Peppers.
Lindo.
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Trinta graus
Duas leituras grandes para essa tarde de verão:
Um perfil de Louise Mensch, a musa de 2011, no Guardian: http://bit.ly/n3O8zM
Um texto defendendo a existência de técnicos para pessoas comuns, na New Yorker: http://nyr.kr/q09qYC
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Dresden
Em um post no blógue de livros da New Yorker, a jornalista Marina Keegan contou sua experiência ao assistir a um show de Sufjan Stevens. O cantor realizava o último show da turnê de “The Age of Adz”, o cansativo disco que ele lançou em 2010. Em meio a animais infláveis, dançarinos fluorescentes e músicas de quinze minutos sobre o fim do mundo, Marina lembrou-se de Kurt Vonnegut e seu livro, “Matadouro 5″.
No livro, o personagem Billy Pilgrim é abduzido pelos tralfamadorianos, uma espécie para a qual ninguém morre: as pessoas morrem apenas aparentemente, afinal todos continuamos a existir nas memórias e recordações daqueles que ainda estão “vivos”. A vida não corre em ordem cronológica em Trafalmador, já que seus habitantes conseguem ir e voltar no tempo. As obras de ficção do planeta seguem a mesma falta de sentido. A passagem citada no post da New Yorker explica:
There isn’t any particular relationship between the messages, except that the author has chosen them carefully, so that, when seen all at once, they produce an image of life that is beautiful and surprising and deep. There is no beginning, no middle, no end, no suspense, no moral, no causes, no effects. What we love in our books are the depths of many marvelous moments seen all at one time.
(Esqueçam esse post e corram atrás do livro, que é sensacional. Engraçado e profundo ao mesmo tempo, é a melhor sátira sobre a guerra – e sobre o homem, portanto – do século XX).
A jornalista traça, então, um paralelo entre os livros tralfamadorianos e o disco mais recente de Sufjan Stevens: estranhos, sem narrativa ou sentido lógico, mas que produzem um efeito de encantamento e beleza bem mais eficazes do que a maioria de seus pares.
***
Nos últimos dias só consigo ouvir um disco: “Go Tell Fire in the Mountain” , do quarteto inglês WU LYF (sigla para o ridículo nome “World Unite – Lucifer Youth Foundation”). Talvez precisasse de dez parágrafos para descrever a música deles. Mas prefiro chamar de “exorcismo transcendental”, como se o Spiritualized tocasse post-rock, com um baterista do Mali e um vocalista viciado em oxi, crack e cocaína, simultaneamente. As letras são cantadas (berradas, melhor dizendo) em um inglês absolutamente incompreensível, apesar dos quatro integrantes terem saído de Manchester. Tudo joga contra eles. Mas o disco é excelente. E, mais importante, a música deles é revigorante, inspiradora. Faz bem ouvir WU LYF.
Em entrevista publicada ontem no Pitchfork, o vocalista Ellery Roberts diz que “ninguém nos entende, mas qualquer um pode se conectar com a gente”. Isso ;e aquilo que faria o WU LYF um grande exemplo de banda tralfamadoriana: é tudo muito estranho, mas faz mais sentido do que a grande maioria das bandas por aí. Afinal, é música feita com a alma, com o coração. Nada calculado, tudo é risco.
Ellery termina a entrevista dizendo que prefere ser odiado do que receber a aprovação inócua das pessoas, que normalmente acaba em esquecimento depois de algumas horas, normalmente dirigida a tudo aquilo que inofensivo. A música do WU LYF pode ser qualquer coisa, menos inofensiva.
E isso faz com que ela ressoe por muito tempo. “Go Tell Fire in the Mountain” não tem muito sentido, mas é bonito, assustador, profundo. Como a vida. Acho que os tralfamadorianos já sabiam disso antes da gente.
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Polisário
O Saara Espanhol é uma região no extremo oeste do deserto do Saara que pertenceu a Espanha até 1975. Resultado da repartição da África realizada pelas potências européias no século XIX, o lugar era um caldeirão de insurgências tribais e ocupações marroquinas, fazendo com que a Espanha nunca conseguisse ocupar inteiramente o território. Em 1975, após a morte do General Franco, o Marrocos invadiu definitivamente a região considerada maldita pelos espanhóis, na chamada “Marcha Verde”. Atualmente, o Saara Espanhol é um território sem governo, ou “região não-descolonizada”, de acordo com o diplomatês da ONU. Sua posse ainda é objeto de disputa por parte da Espanha, de Marrocos e da Mauritânia.
O Saara Espanhol é um lugar sem dono ou comando legítimo. Compreensivelmente, o primeiro single do segundo disco do Foals, lançado no ano passado, chama-se “Spanish Sahara”. Basta olhar a letra.
Na música, um enfurecido vocalista e letrista Yannis Philippakis fala de um lugar para deixar o horror guardado. Então ele acha: It’s the Spanish Sahara, the place that you’d wanna leave the horror. A música cresce, a fúria se acumula, como se toda a confusão do Saara Espanhol entrasse na vida dele.
Todos precisamos de algum lugar para escondermos a raiva. Caso contrário, viver é impraticável.
Que seja um lugar tranquilo, ao menos.
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This band will save your life
A arte é um grande livro de auto-ajuda. Sua grande função é alimentar o espírito humano. Confortar o indivíduo, para que ele sobreviva em um mundo estranho e cruel. Ajudá-lo a entender que esses cerca de 80 anos nos quais iremos existir são um milagre. Portanto, devemos gastar esse tempo da melhor forma possível.
Os artistas tornam-se mestres, gurus, ícones aos quais as pessoas procuram nos momentos de dificuldade (principalmente aqueles sem religião). Um cantor morto 10 anos antes de você nascer parece te entender mais do que seu melhor amigo. Um escritor que viveu isolado em quarto com medo da tuberculose na Paris do final do século XIX compreende melhor do que seu psicólogo as suas angústias, e ainda indica um jeito de superá-las.
“Meia-Noite em Paris”, o filme novo do Woody Allen, é um grande filme sobre essa relação entre o homem e a arte.
Gil Pender está numa rua sem saída de sua profissão, prestes a se casar com uma mulher com quem não tem afinidade nenhuma (tirando o fato de ambos gostarem de pão sírio no restaurante indiano, a melhor piada do filme). Sonha em ser escritor, morar em Paris, como seus ídolos Scott Fitzgerald e Hemingway, e lá tentar encontrar algum sentido na vida. Certa noite, encontra Scott e Zelda, e descobre a tal “Movable Feast” que o Papa escreveu: de Picasso à Dali, passando por Gertrude Stein e Buñuel, todos indicam, de uma forma ou de outra, uma saída para Gil resolver seu presente.
Claro que nunca iremos encontrar Hemingway em um bar na madrugada, dando conselhos sobre o amor. Mas, de certa forma, toda vez que abrimos um livro, ouvimos um disco, assistimos a um filme, estamos conversando com nossos ídolos, em busca de salvação.
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Corda
Pitchfork: How do you stay yourself while growing into a working relationship?
JV: It has a lot to do with realizing that, no matter how much you care about a person, you have to be able to know that you can sit down at night and be happy with who you are without that person. That’s really hard when you’re a lonely emo kid. But you can do it. You should be able to have happiness. If you don’t have that, then you’re not really bringing your whole self to the relationship. You’re using each other as a crutch. But I could be totally fucking wrong.
Justin Vernon, o Bon Iver, contando umas verdades em uma entrevista no Pitchfork. Aliás, preciso falar com mais calma do disco novo dele, uma obra-prima da música de elevador. A última música, “Beth/Rest” (conduzida por um sintetizador Korg vindo diretamente de alguma trilha do Vangelis) é, sem nenhum pingo de ironia, maravilhosa.
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Ignorância
“Suck it and see” (a expressão inglesa equivalente ao nosso “pague pra ver”) tornou-se uma obssessão por aqui nas últimas semanas. É um disco solar, para não dizer bem humorado, dos Arctic Monkeys. Também pudera: Alex Tuner, vocalista e letrista da banda, namora uma mulher linda e tem uma banda de sucesso, e, por isso, não poderia mais escrever músicas sobre a juventude perdida de Rotherham.
Mas no meio de tanto otimismo e felicidade, eis que na décima faixa do disco surge uma nota dissonante. “Love is a Laserquest” é uma espécie de acerto de contas com uma ex-namorada, com a qual as coisas certamente não terminaram bem. A música começa com nosso herói perguntando: “você ainda se sente mais jovem do que acharia que estaria agora? ou você já começou a se sentir velha, querida?”. Para depois concluir: ” Não se preocupe, tenho certeza que você ainda destrói corações com a eficiência que apenas a juventude pode suportar”.
Ela achava que o amor era como brincar de Laserquest. Para quem não conhece, Laserquest é uma espécie de paintball, mas ao invés de tinta, a munição é um laser infra-vermelho, que faz seu colete apitar quando atingido. As disputas acontecem em um galpão escuro e fechado. Aqui em São Paulo, o Laserquest (ou Laser Shots, na nossa versão) foi febre em meados dos anos 90, quando todas as crianças faziam suas festas de aniversário em lugares assim (sempre morri de medo disso, talvez por pressentir a analogia futura).
Para ela, o amor é um jogo dentro de um lugar escuro, no qual as pessoas atiram umas nas outras. E nesse jogo, todos nós perdemos, cedo ou tarde.
Então, o herói admite: “vou fingir que você era apenas mais uma paixão”. Não, meu caro, auto engano é a pior escolha possível nessas horas. O choque de realidade vêm rápido. Mais precisamente, dois versos depois: “Não consigo pensar em nada para sonhar, não consigo achar um lugar para se esconder”. Ilusões arrasadas, esperanças perdidas.
Nosso herói termina se lamentando, dizendo que virou uma pessoa “pipe and slippers and rocking chair”, um sujeito que ficou velho mais cedo do que deveria, mais um dos achados desse grande letrista que se transformou o Alex Turner. Mas, no fim das contas, ele conta que achou um novo jeito de fingir que ela era apenas mais uma paixão.
Talvez o auto-engano não seja tão ruim assim. Talvez seja a única saída possível. Fingir que ela não foi/é/será tão importante assim.
Mas, quando paramos pra pensar, essas são as mulheres mais importantes.
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Acabou
Baby, you’re where dreams go to die
I regret the day your lovely carcass caught my eye
Baby, you’re where dreams go to die
I’ve gotta to get away, I don’t want to,
but I have to try
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